Cartão vermelho
Michel Heitzmann
© Michel Heitzmann - Thunder e Slick que aparecem na estória
O português é a fala da minha infância, adolescência, de alguns anos de trabalho e de grandes amizades de meio século.
Esses anos formativos são a antítese da minha vida profissional onde tive que me conformar para ter um mínimo de sucesso.
Minha brasileirada faz parte da minha personalidade. Aquela alegria. A cara de pau. As risadas. As injustiças. Os arrivistas. Os sem-vergonhas. O respeito. E o futebol decadente.
Hoje, não tou nem ai, e pergunto. Ouço, sem cinismo, sem pixar, para melhor compreensão.
Aprendi o português nos anos 70 quando estória era conto e história eram o conto dos colonizadores portugueses. Escrevo estórias por ser não conformista.
The Quiet Frame é o que construí quando parei de pedir licença. thequietframe.com
Levei cartão vermelho, cartões vermelhos seis vezes na minha vida profissional. Rua.
A primeira vez foi cômico.
Nova Iorque. Columbia University. Paquerando fiquei duro. Minha namorada, e agora a mãe de dois dos meus filhos, me mandou a uma livraria na Manhattan burguesa onde ela tinha me conseguido um emprego. Alguns dólares por hora.
Missão simples: pegar um carrinho cheio de livros e colocá-los na prateleira em ordem alfabética.
Meu alfabeto desmoronava depois do N. A gerente me observou meia hora, e ai colocou a mão no meu ombro e falou bye. Eu quis reclamar a grana dos quinze minutos trabalhados mas com péssimo inglês e sendo ilegal, me calei.
Peguei o metrô de volta para o dormitório.
As demissões que vieram depois foram mais rentáveis. Cada saída era acompanhada de uma indenização e um salto de salário e em responsabilidade. Um mecanismo que eu fingi estar dominando: ser demitido, aterrissar, mais alto e melhor. Funcionou até 2008, quando tudo desabou com a bolsa e eu fali. Mãe, me empresta uma grana.
Estando bem na merda, aceitei um emprego na Sibéria. Eles ofereceram uma viagem exploratória que rejeitei sabendo que se eu visse o lugar não aceitaria.
Aterrissei na puta que pariu, num mundo insólito e feio.
Novossibirsk, centro de pesquisa soviético longe de tudo para que os mísseis Minuteman americanos não a alcançassem, fica a seis fusos da Europa, nove horas de voo passando por Moscou de Genebra quando os voos existiam.
Hoje, graças a um filho da puta de presidente é bem mais complicado fazer o trajeto inclusive com escalas em países que cê nem sabe que existem. Não que eu me aventure após caracterizar o sujeito corretamente na frase anterior.
Voltando no tempo, pra mim foi tudo insólito, surrealista e uma piada. Pra eles era a realidade, já que se não eram filhos dos deportados eram de algum ilustre em física ou matemática.
Um cara de Vladivostok (fica ao norte da Coreia do Norte quando a puta que pariu chega ao Pacífico do lado do Japão) me perguntou nas primeiras semanas o que eu mais gostava na cidade. Sem hesitar: o aeroporto. Virou piada por quatro anos.
A Sibéria acabou sendo uma bênção, porque estar destruído num lugar tão longe de tudo significava que minha versão anterior simplesmente não existia, só um cara fazendo seu trabalho numa cidade distante. Não exatamente. Eu era um dos três estrangeiros numa cidade de um milhão, virei, sem querer, celebrity. Um outro era um peruano chefe de manutenção da linha aérea local que eu rapidamente deixei de usar. O terceiro, um financeiro inglês escondido dos britânicos após cometer fraude.
É difícil explicar menos 30, menos 40. Tentei reproduzir em casa saindo do chuveiro ainda molhado e pelado correndo pro congelador com um ventilador ligado do lado. Quase, mas não é igual, porque com menos trinta você chora e as lágrimas congelam. A cara doi.
Os siberianos passeiam cachorros como qualquer um, mas sem recolher a bosta.
E aí vem neve e nunca derrete naqueles seis meses de frio, abrem-se passagens por ela e depois de um tempo você anda em calçadas um metro acima de onde elas realmente estão.
© Michel Heitzmann - Como tem neve!
As temperaturas vão ao positivo quando cê já não acredita que seja possível. A neve derrete repentinamente mas com tanta neve compacta, o gotejamento demora semanas. E acontece o fenômeno fedido do mil-folhas de merda desaparecendo aos poucos com milhões de moscas. Chega a primavera.
Agora, fora das cidades soviéticas, a Sibéria é National Geographic. Assunto pra outro dia.
A última demissão foi na França, outro lugar que eu adoro pixar mas não agora. Aposentadoria precoce me disseram.
Tentei mas fiquei sem rebote, sem próxima oferta, o cara sentado no banco de reservas num jogo que tinha acabado. Saí de Paris, voltei à Suíça com a mente em caos.
Sem distração do cotidiano executivo, percebi que nunca tinha processado todos os efeitos de rejeições contínuas.
A casa é grande, tinha sido de família, agora é só minha. Coloquei uma bicicleta de madeira na sala com um remo do lado, os dois quase sem uso, mas são lindos.
Slick chegou primeiro. A gente é apegado de um jeito que constrange os que nunca tiveram cachorro. Quando saio ele fica bravo, quando estou fora, me apresso de voltar.
Thunder quase não foi meu. Sobrinho do Slick, também um Malinois. Minha irmã tinha reservado ele na mesma senhora que me vendeu o Slick. Uma caixeira de supermercado perdida no interior que sabia criar animais.
Minha irmã mudou de ideia e fui buscar a fera com minha filha e o Slick. Num encontro carinhoso com a mãe e a irmã, ele ficou sem jeito com tanto cachorrinho entre as patas. Apelei à razão quando minha filha quis levar dois e ela escolheu o Thunder que a tinha escolhido.
Me vi olhando a grama crescer e cortando ela. Tendo mil ideias uma mais cretina que a outra. Bebi e bem talvez pra não reconhecer a derrota emocional.
Aí os dois joelhos cederam depois das caminhadas com os cachorros. O cirurgião sugeriu trocar os dois simultaneamente e eu concordei sem debater nem perguntar nada.
Após a operação, ele revelou na sala de recuperação que era a segunda vez que tinha ousado cortar duas pernas simultaneamente. Fui verificar no Google, e é verdade que ninguém em sã consciência faz isso.
Fiquei imóvel por semanas e naquele silêncio, com medo de cair, parei de beber. Sem drama algum, simplesmente eu precisava de todos os meus sentidos. Então parei pra nunca mais recomeçar.
Meu filho adolescente se mudou pra casa sem avisar. Começou só a estar mais por aqui. Uma caixa de papelão de supermercado cheia de roupa foi a primeira até que depois de várias micro mudanças, ele mora comigo. Não perguntei por quê. Acho que eu sei.
Eu sou um cara bem mais agradável que fui.
É essa a estória que eu quero contar. Não aquela das demissões, nem da cachaça, e tampouco dos joelhos.
Tem muito guru, muitas igrejas e pentelhação sobre resiliência, sobre como se reerguer e se ressignificar.
O único caminho pelo luto é com pessoas que te fazem as perguntas difíceis e ficam quando as lágrimas chegam. São as amizades que me ajudaram a despertar.
Tudo tem sua hora certa. A não ser que cê já esteja morto: se apresse com tranquilidade.
E agora eu te pergunto:
O que você anda carregando e fingindo que não existe?



