Não, mãe. A vida deixou de ser uma caixa de bombons.
Michel Heitzmann
© Michel Heitzmann - Na condução, pouco antes do grande Prêmio
O português é a fala da minha infância, adolescência, de alguns anos de trabalho e de grandes amizades de meio século.
Esses anos formativos são a antítese da minha vida profissional onde tive que me conformar para ter um mínimo de sucesso.
Minha brasileirada faz parte da minha personalidade. Aquela alegria. A cara de pau. As risadas. As injustiças. Os arrivistas. Os sem-vergonhas. O respeito. E o futebol decadente.
Hoje, não tô nem aí, e pergunto. Ouço, sem cinismo, sem pixar, para melhor compreensão.
Aprendi o português nos anos 70 quando estória era conto e história era o conto dos colonizadores portugueses. Escrevo estórias por ser não conformista.
The Quiet Frame é o que construí quando parei de pedir licença. thequietframe.com
Uma cena memorável nos enganou. O Forrest no banco com a caixa nos joelhos, e a mãe dele dizendo que a vida é assim: você nunca sabe o que vai pegar. Da o fora.
A vida é um cassino. E eu fui em vários.
Campione d’Italia, um povoado perdido em frente a Lugano. Las Vegas. Mônaco. Uma ilha no Caribe cujo nome decidi esquecer.
Nunca ganhei.
Nenhuma vez. Nem no blackjack, nem na roleta, nem nas máquinas caça-níqueis que tentei vinte minutos no Caribe. O James Bond (Jaime Grude mas temos que admitir que é melhor em inglês) nunca joga caça-níquel e eu queria entender por quê. Agora sei.
Eu entrava em cada um desses palaces como qualquer cara que viu muito filme, ou até demais. Vestindo o smoking imaginário, a trilha sonora, e a fantasia de ser o “cheguei”. As fichas. O Martini. As gatas.
E que gatas. Em Las Vegas, eu vi muito mais velhinha com baldes de papelão cheios de níqueis no colo rolando em scooter elétrico e com banha pendurada dos dois lados. Sou testemunha de um horror societal. Um horror. Mas estou divagando.
Saldo de cassino para mim: três horas, drinks de graça, e uma carteira mais delgadinha.
É esse o lance dos cassinos. Sempre foi. Cassinos não vendem jogos. Eles vendem uma fantasia que cê veste na entrada e devolve no táxi se não estiver de cueca. Os Martinis são por conta da House porque a aritmética está do lado deles.
O cassino não perdoa e é uma babaquice.
Agora, preste atenção. Já reparou que cassino não tem um único relógio à vista. Nem janela. O carpete é bem grosso para ninguém ouvir passos. O oxigênio é bombeado, levemente enriquecido. Os drinks são de graça porque quando cê bebe cê perde a noção de ser humano. A crupiê é simpática apesar de ver em cada rodada vários dos seus salários anuais serem perdidos. A simpatia é de graça e a esperança da gorjeta a motivação.
Você não sai. Te tiram. Pelo amanhecer, pela sua esposa, por uma mulher qualquer, pela carteira, ou por um sujeito musculoso de terno escuro que esteve te observando desde que você entrou.
Não quero ser chato mas eis a história.
A máquina caça-níquel foi inventada em 1898 por um mecânico chamado Charles Fey (nascido August “Gus” Fey, na terra dos alemães), em San Francisco. Recompensas variáveis. Três rolos. Chiclete e moedas como prêmio. Sem ninguém te olhando, o que foi a grande invenção para aumentar o desemprego e diminuir furtos. O invento nunca foi patenteado porque jogo de azar era ilegal na Califórnia. Aliás ainda é.
A ciência por trás do fenômeno cassino, a gente só entendeu sessenta anos depois graças a um certo B(urrhus) F. Skinner, que, em Harvard, passou a vida maltratando pombos e ratos. O terror dos bichos virou uma ciência de comportamento que conclui que somos rato ou pombo.
O Skinner descobriu que se você recompensar um pombo toda vez que ele estica o pescoço pra bicar um botão, ele bicará num ritmo estável. Se você recompensar às vezes aleatoriamente, ele bicará mais rápido. Se você recompensar quase nunca e sem nenhuma lógica, ele bicará até cair. Talvez uma grande descoberta mas é sacanagem.
Hoje é uma ciência que muitos pretendem dominar e com a qual se deleitam em esclarecer qualquer dúvida no LinkedIn. Uma ciência que permite entender como a gente sobrevive e principalmente como nos motivar a fazer coisas atordoados e sem fim.
Hoje, o rei das Américas, que não leu nada da teoria, a aplica muito bem todo santo dia sem precisar de gaiola para os pombos.
Prosseguindo no histórico.
Kevin Systrom, leu e até entendeu, já que em 2010 ele bolou e lançou Instagram. Ele oferece o seguinte conselho: learn enough to be dangerous. Valeu, obrigado Kev. Agora no meu bolso.
Zhang Yiming em Pequim, tentou uma empreitada em 2012, comprou empresas, e desde então dançamos ao ritmo dos bytes do TikTok.
Talvez você viu a publicidade do TikTok na TV recentemente. Uma adolescente passa a prova porque estudou no TikTok. Impossível viver sem essa felicidade.
Kevin é riquíssimo mas Zhang atropela por um fator de 30 com seus 60 bilhões. A moeda pouco importa. Nem dá para imaginar.
Três iterações. A primeira capturou nossa grana. A segunda matou pombos e ratos. A terceira nos sequestrou.
Evolução do fenômeno cassino. É minha observação e cheguei a essa conclusão sem machucar ninguém.
Faz décadas que não piso num cassino.
Mas estou num cassino todo dia. Em casa.
Sem horas. Sem janelas. Os cachorros são o carpete. As telas são o crupiê. O sucesso é meu jackpot.
Tive êxito com frequência para continuar. Eu empreendo e estou desenvolvendo uma maravilha. Estou chegando ao fim. Arte, chineses, IA, fotografia. Nossa! Vai ser demais.
Esse desenvolvimento é o meu cassino que sequestra tudo em mim.
Eu devia ter sacado mais cedo. Sabemos que o iPhone é o cassino de bolso. Todo mundo vê. Não?
Você que vai trabalhar, reparou no metrô, no trem, no carro que ninguém fala? Todo mundo vê. E sabe. E continuamos rolando para esquerda, para direita, para cima, para baixo. Com um polegar se você tiver a idade, ou com dois indicadores se não tiver. Rolando, girando que nem o mecanismo do Fey ou a roleta, sim, do cassino.
Eu acho que tudo que captura nossa atenção é um cassino. Em frente com antolhos postos.
Um projeto. Uma rixa. Uma reforma. Uma amizade. Um divórcio onde, por experiência, sempre perco.
Sem horas. Sem janelas. Recompensas variáveis e aleatórias. A House sempre ganha porque ela te vende a experiência e sequestra sua vida.
A maioria das pessoas que conhecemos está sentada, em casa ou no escritório, sendo consumida por algo como se estiverem em um cassino.
Sei que você ia me perguntar sobre o último sábado?
Em frente às telas às nove. Os adolescentes estão em casa, prontos para me encher o saco.
TÔ OCUPADO! Tenho que fazer MEU projeto. Lembro de três pequenas vitórias entre dez e uma, do tipo que faz você apostar mais uma ficha. Só um pouquinho mais.
Lembro dos cachorros num momento e de uns restos que requentei para o almoço, rapidinho, entre três telas. Para os adolescentes também.
Levantei os olhos por volta das três.
Me encontrei ainda no cassino e sozinho com os cachorros, ignorando o resto.
© Michel Heitzmann - A vista do meu cassino
A charmosa crupiê de colete bordô combinando com o carpete não estava aqui. Não precisava.
E eu perdi a chance de curtir os meus filhos, cachorros e primavera. Que otário.
Você consegue se desprender para curtir a vida?
Lancei o The Quiet Frame pra a gente reparar o carpete, o oxigênio, os relógios que faltam. Leva dois minutos diários para nos ajudar a lembrar que algo maior existe para ser curtido. Talvez você goste. Grátis no Apple e Android, links em thequietframe.com/app.
Te agradeço a leitura.



