Não pise no meu saco
Michel Heitzmann
© Michel Heitzmann - O abelhão, sorte dele, não tem saco
O português é a fala da minha infância, adolescência, de alguns anos de trabalho e de grandes amizades de meio século.
Esses anos formativos são a antítese da minha vida profissional onde tive que me conformar para ter um mínimo de sucesso.
Minha brasileirada faz parte da minha personalidade. Aquela alegria. A cara de pau. As risadas. As injustiças. Os arrivistas. Os sem-vergonhas. O respeito. E o futebol decadente.
Hoje, não tou nem aí, e pergunto. Ouço, sem cinismo, sem pixar, para melhor compreensão.
Aprendi o português nos anos 70 quando estória era conto e história eram o conto dos colonizadores portugueses. Escrevo estórias por ser não conformista.
The Quiet Frame é o que construí quando parei de pedir licença. thequietframe.com
Não pise no meu saco.
O avião pousa e chega ao portão A52. Ouvimos o dingue. Impacientes, os passageiros se levantam para desembarcar. Sempre tem o idiota da janela que pede um bolso XXL para pô-lo nos joelhos. Enquanto isso, o corredor vira uma zona de bagagens de mão, casacos, piralhos gritantes, e cretinos de pé que acham que sairão mais rápido. Minha poltrona é sempre no corredor. Espero sentado olhando a mulher do meio ficar lívida por minha falta de ação. Inevitavelmente, levo o casaco, a bolsa, e uma bunda na cara.
Essas situações são previsíveis e se repetem a cada voo e porém elas me irritam. Não é a bunda ou o cutuque constante. É o ataque ao meu espaço físico. E também mental.
Eu respeito o seu espaço e sempre espero que você respeite o meu. Não é complicado e é a minha convicção de décadas.
Olha, cê pode ser um babaca se quiser, um corta-tesão, um evangelista e até um republicano da Flórida. Eu não tou nem aí, até cê me atingir na minha liberdade de ser e pisar no meu saco
Quando acontece, eu berro de viva voz ou com o teclado.
Sou um liberal com uma forte tendência verde. Liberal no sentido político-econômico de laissez-faire e do lado humano de estar pouco me importando daquilo que os outros pensam. Deixei de julgar aqueles que ainda acreditam ou são capazes de matar por causa de contos milenares.
O meu lado verde não é inspirado do dólar mas sim do sistema que nos dá vida, ou seja, a natureza. Salve a natureza sambou Beth Carvalho na minha infância (procure no Spotify, vale a pena, “não desmate o nosso chão porque ele é a nossa riqueza…vi comício, ouvi promessa, mas eu não vi firmeza”).
Agora, ser liberal é difícil. No mundo corporativo eu percebo que a muitos falta coragem e eles constroem frases de fazer avaliações, de proceder com cautela, de inação. Cadê o pessoal que acredita? Vi gente que pouco a pouco para preservar perde até a personalidade.
Lutar contra essa moleza é minha missão.
Anedota. Minha contadora me indicou que eu carregava uma dívida fiscal na Rússia. Pré-Ucrânia, mas não pré-Putin. Ela me explicou as graves consequências de não honrar a dívida. Mas nem que a vaca tussa, ache um jeito pra não financiar esses merdas. Ela achou e acabei pagando a dívida à nossa ilustre confederação helvética. Ninguém reparou e tudo bem.
© Michel Heitzmann - Perdão, mas deixei a minha carteira em casa
É assim que as convicções funcionam. Aparecem em atos pequenos, invisíveis, que ninguém aplaude. Mas fazem bem.
Outros pagam bem mais por convicções. Migram. Ou ficam e se calam. E tem um monte que morre por convicção.
Temos que lutar para preservar o nosso espaço e convicções.
Um exemplo da minha vizinhança. Tem idiota por aqui que acha que a Suíça precisa de um teto de dez milhões de habitantes. O argumento é que não temos os recursos para ter mais quando na realidade é racismo e chauvinismo para preservar o cartão postal. Fizeram o processo legal, conseguiram assinaturas suficientes, e a resolução vai ao voto. Se passar muda a constituição. As pesquisas indicam que a probabilidade de cataclisma é real.
E lá vou eu a explicar com perguntas incisivas. Você realmente acha que um bando de pastores desceu da montanha e inventou o chocolate, os relógios e a indústria farmacêutica? A resposta sendo não, vieram de fora — e há séculos. Continuam a vir para a nossa glória nacional como a Nestlé ou a Rolex.
Aí vai o argumento econômico: olha que o estrangeiro também paga imposto. E finalmente o genético: como cê acha que podemos ganhar da França enquanto o Brasil não consegue? Frau Meier, confere a escalação da nossa seleção com atenção detalhada no meio-campo e ataque. Peraí, na zaga tem o Akanji e o Rodriguez.
Nenhum desses argumentos convence os que assinaram a petição. Aí eu vou no absurdo.
Imagina que a resolução vire constituição. Em 204X, o país chegará exatamente a dez milhões de habitantes. É inevitável. Um bebê nasce. E aí, a gente faz o quê? Alguém vai ter que se sacrificar, ou teremos que deportar a Luiza ou o Granit. Quem sabe até os dois, pra ter uma margemzinha.
Chegamos a esses absurdos porque nesse caos constante, diarreia de informação, e avalanche de vídeos a gente não tem tempo para pensar.
Jemima Kelly escreveu no FT que os liberais deveriam ser menos tímidos e defender aquilo que acreditam. Ela tem razão. O que vivemos é uma capitulação frente àqueles que são organizados. E nós, com uma fatia de autocensura de cada vez, calamos as nossas convicções e perdemos a noção do que acreditamos.
Precisamos de gente normal que pense, se recuse a ser atropelada e que tenha a coragem de agir.
Concorda, ou você também se deixou levar pelo caos?
O mundo é barulhento. O seu não precisa ser. (The world is loud. Yours doesn’t have to be)
Um app pra te ajudar a dar um passo atrás está disponível no iOS e Android. The Quiet Frame te dá espaço pra se reconectar com o mundo e consigo mesmo. É uma janela, talvez uma porta aberta, para outras culturas, a natureza e o nosso planeta. Gratuito por 7 dias e em português do Brasil.



