O professor que me devolveu a redação sem ler
Michel Heitzmann
© Michel Heitzmann - Deitado na floresta - Leica Q3 43
O português é a fala da minha infância, adolescência, de alguns anos de trabalho e de grandes amizades de meio século.
Esses anos formativos são a antítese da minha vida profissional onde tive que me conformar para ter um mínimo de sucesso.
Minha brasileirada faz parte da minha personalidade. Aquela alegria. A cara de pau. As risadas. As injustiças. Os arrivistas. Os sem-vergonhas. O respeito. E o futebol decadente.
Hoje, não tou nem ai, e pergunto. Ouço, sem cinismo, sem pixar, para melhor compreensão.
São Paulo. 1981. Primeiro semestre da faculdade.
Tínhamos uma aula de português na FAAP. A tarefa era escrever uma redação usando uma lista de palavras obrigatórias.
Não estava prestando atenção às instruções.
Anotei as palavras. Perguntei aos meus colegas o é agora? Obtive umas três versões. Livre de constrangimento, lá fui eu.
Quando um substantivo não cabia, virava adjetivo, verbo. Pouco importava. Fluido. Ficou bom.
Hora da entrega. O professor lê algumas em voz alta. As boas. Todas com 10. A sala ouve em silêncio. Aí ele termina.
Vem a mim. Me devolve a redação sem ler. Também 10. Me olha e pergunta: cê que escreveu?
Eu tinha 18 anos. Um adolescente magro, sem sucesso sexual, óculos na cara. Aquele CDF sem jeito.
Não foi um elogio. Foi um julgamento. Uma ferida. Um soco. Uma martelada.
Não respondi. Mandei para a puta que o pariu sem abrir a boca.
Em 81, eu contava com o meu cérebro para compensar o resto. E o sujeito destruiu em segundos a pouca confiança, bem magra, com uma única pergunta.
Naquela época, era papel e caneta. Guardei. Do jeito que a gente guarda o que não sabe ainda como resolver. Fiquei com aquela obra por um tempo até perdê-la numa das mudanças.
Carreguei por muito tempo sem saber. Tento lembrar a cara do cara. Não consigo. Enterrei fundo demais.
Agora que eu escrevo, o episódio ressurge. Sem angustia. Sem raiva. Com clareza.
Imagino que aquele professor não era uma má pessoa. Fazia parte de uma engrenagem, de um sistema que ensina normas e quer ter um eco normativo. A nota foi 10. Ele deve ter gostado mas não se permitiu ler em voz alta e duvidou a autoria.
O sistema não tinha espaço para minha criatividade.
Encontrei esse professor ao longo dos anos. Com outros nomes, funções e lugares. O colega que mudava de assunto quando eu falava. O VP que promoveu outra pessoa. A empresa que chamou o tchau de reestruturação. O idiota que mandava pensar bem. Mesma pergunta, palavras diferentes. Foi você mesmo que fez isso. Tem certeza que você pertence aqui.
Cada vez enterrei. Cada vez com um custo.
Agora, eu sei.
Os sistemas e redes em que vivemos e com os quais interagimos não são neutros. São construídos para reconhecer um certo tipo de resultado e recompensá-lo. Tudo que não cabe no padrão é questionado. Freado. Obrigado a se justificar. Cagado. Sem falar que todos têm os seus próprios interesses.
A maioria das pessoas aprende a se regimentar. É mais fácil. É mais seguro. As recompensas são reais.
Mas alguma coisa se perde. Você. Eu. Nós.
Deve ter milhões por aí que deixaram de acreditar porque alguém plantou uma dúvida ou aquele sinal de se comporte.
The Quiet Frame existe por causa daquele cara quando eu tinha 18 anos. Não como vingança. Como resposta.
A resposta é: sim. Fui eu que escrevi. Sempre fui eu.
O que eles fizeram você parar de acreditar e que você tinha que fazer?


