Verdades suíças por um suíço que inventa estórias suíças
Michel Heitzmann
© Michel Heitzmann - Aldeia imaginária na neblina
O português é a fala da minha infância, adolescência, de alguns anos de trabalho e de grandes amizades de meio século.
Esses anos formativos são a antítese da minha vida profissional onde tive que me conformar para ter um mínimo de sucesso.
Minha brasileirada faz parte da minha personalidade. Aquela alegria. A cara de pau. As risadas. As injustiças. Os arrivistas. Os sem-vergonhas. O respeito. E o futebol decadente.
Hoje, não tou nem ai, e pergunto. Ouço, sem cinismo, sem pixar, para melhor compreensão.
Aprendi o português nos anos 70 quando estória era conto e história eram o conto dos colonizadores portugueses. Escrevo estórias por ser não conformista.
The Quiet Frame é o que construí quando parei de pedir licença. thequietframe.com
Qualquer semelhança com vilarejos reais, conselhos municipais ou pessoas com copos de vinho na mão falando merda é mera coincidência.
Imagine uma aldeia a 850 metros de altura, uma vista impressionante dos Alpes num canto da Suíça rodeado pela França. Mil e duzentos habitantes e uma porrada de vacas.
Conto duas estórias recentes.
Primeiro, o referendo.
Tentaram aumentar os impostos.
As pessoas por aqui não se mexem pelo coletivo, apesar de respeitá-lo. Na Suíça, as pessoas se movem quando quiserem e se o assunto é de interesse pessoal.
O referendo existe exatamente por isso. Tem referendos nacionais, cantonais e das comunas. Sobre tudo. A energia nuclear, a relação europeia, a piscina da esquina, o custo de jogar fora o lixo. Daqui a pouco votaremos para limitar o número de habitantes na Suíça a 10 milhões. Mal posso esperar chegar a ter 9.999.999 inquilinos, nascerem gêmeos e a gente jogar alguém fora de casa. Pessoal do ICE vai nos ensinar como operar.
Deixo fechar o parêntese e prosseguir com a estória.
É só necessário ter um número suficiente de assinaturas para o assunto aparecer numa próxima votação.
Rebelde como sou, resolvi organizar um referendo intitulado com um populista “chega, já é demais”.
Coletei assinaturas. Levei portada na cara. Expliquei a mesma coisa 179 vezes. Errei. Tive que recomeçar com os formulários certos, respeitando os procedimentos.
Foi uma goleada: 7 a 3. Gente, populismo é demais!
E fui eleito para o conselho da comuna.
O conselho é a legislatura do vilarejo. Não fui bem-vindo.
E aí vem a segunda estória.
Esse conselho municipal se reúne em noites de semana às 20h a cada alguns meses. Uma assembleia de cidadãos eleitos com a função de debater e aprovar recomendações do executivo.
Na prática, carimba tudo. Segue o roteiro sob a orquestração do chefe local — uma figura que não vou descrever em detalhes, porque apesar de ser uma história inspirada por semelhanças, o sujeito não os merece.
Cinco funcionários municipais na frente defendendo absurdos com a maior cara de pau. Paineis de “especialistas” quando necessário. Pauta. Slides projetados tortos na parede. Nem um retângulo direito conseguem.
Pomposo até o nojo. Monsieur X aqui, Madame Z ali — apesar de todo mundo se conhecer pelo primeiro nome na rua.
Perguntas permitidas só se o cidadão se levantar.
Debate? Não muito. Tudo parece resolvido antes de alguém chegar.
Um grupo fechado manda nesse vilarejo imaginário há anos, não porque são poderosos. Mas porque são disciplinados.
Quando só 40 a 45 por cento do eleitorado vota, 20 por cento dedicados e concentrados em poucas famílias é suficiente para ganhar tudo, sempre.
Participei durante meses desse tal conselho. De pé, fiz perguntas. Recebi respostas aplaudidas que não eram respostas. Trouxe problemas. Me disseram que não era o formato. Votei. Perdi por margens gigantescas. Formei o hábito de não escutar e votar sempre contra.
E aí, foi a gota d’água.
O orçamento anual total do povoado é de alguns milhões discretos. Numa assembleia interminável, o executivo pede para contrair uma dívida de 1 milhão para refazer a infraestrutura de uma rua que serve 5 casas, enquanto existem umas 365. O argumento: “vote a favor, senão precisamos refazer a avaliação e isso demora.” Dei uma gargalhada, votei contra, perdi.
O sistema não está quebrado. Está funcionando exatamente como foi projetado.
Minha carta de demissão deu um único motivo. A Champions League era um uso melhor do meu tempo.
Quando a dissidência não é permitida e as pessoas não querem ouvir, você não muda nada por dentro.
Você se desgasta, derrotado por design. Vira curiosidade, um pé no saco ou pior, piada.
Sua presença, mesmo em oposição, dá ao teatro a sua plateia. O sistema precisa que você exista para que ele seja legítimo. Isso num povoado suíço, onde o pior que pode acontecer é eu ficar puto por alguns minutos.
Mal posso imaginar o russo no fronte, o democrata americano surfando a onda fascista, o iraniano terrorizado por explosões ou o cubano com corte de luz, todos eles em condições pouco invejáveis.
No meu casinho suíço, o jeito foi chega, e vai pra pqp.
Que mediocridade ainda tem o privilégio da sua presença?



A Portuguesa que vive há 20 anos na Suíça compreende…